Tiê no SESC Vila Mariana

Uma coisa recorrente que eu ouço de várias pessoas é “Já vi [insira artista aqui], não tem porque ver de novo”. Isso, pra mim, explica as vendas fracas de shows como o do Roger Waters deste ano. As pessoas não querem pagar para ver a mesma banda duas vezes. Eu, porém, discordo muito dessa abordagem. Cada show é um show e, mesmo que você não esteja vendo bandas que mudam o repertório a cada show, como o Pearl Jam ou o Radiohead, cada show tem suas minúcias e diferenças, mesmo que pequenas, especialmente se o local do show é diferente.

Tendo dito isto, vi dois show dois shows da Tiê neste ano, o primeiro no Lollapalooza e este, no Dia das Mães, e eles foram radicalmente diferentes entre si.

Ao contrário do show no Lollapalooza deste ano, o show na tarde do domingo de Dia das Mães não contou com uma banda enorme e um palco enorme. A banda resumiu-se a Tiê, o guitarrista e produtor André Whoong, um baixista e um baterista, membros regulares da sua banda. Nenhuma decoração chamativa no palco. Só a banda, seus instrumentos e a iluminação. O auditório do SESC na Vila Mariana comportava uma fração do público que a viu no Autódromo de Interlagos.

O resultado foi um espetáculo extremamente intimista, com vários dos bordões dela, como buscar um João na plateia, andar pelo auditório, sentar na beirada do palco para cantar, mas que não parecia um show. A cantora frequentemente conversava com o público como se nós fôssemos amigos de longa data. Contou histórias, como o cantor sertanejo Luan Santana foi parar em seu último disco, histórias sobre sua banda, sobre membros de sua banda, se emocionou porque era Dia das Mães, sobre como foi parar na novela, e até aceitou pedidos. Um garotinho no meio da plateia pediu (gritou) para ela tocar “a música da máquina de lavar”. “Máquina de Lavar”, Tiê confessou, não estava no repertório daquela noite, mas ela incluiu o pedido.

O show foi tenro, leve, amoroso. Tiê faz você se sentir parte da performance, fala conosco como se fôssemos amigos de longa data. Por vários momentos, parecia que não estávamos num auditório, parecia que estávamos na casa de alguém, vendo uma conhecida cantar.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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