Murilo Sá & Grande Elenco – Sentido Centro

Sentido Centro (Independente)

Independente - 7.5

7.5

Pretensioso, limpo e engomadinho demais, mas com bastante espírito.

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Escrevo esta resenha depois de ouvir este disco algumas vezes. Muitas a mais do que eu escuto normalmente antes de resenhar um álbum. Na primeira audição, eu estava preparado para dar uma nota baixa e escrever coisas horríveis sobre ele. Mas, como tivemos um sabático no período entre eu receber o CD e, finalmente, sentar para resenhá-lo, minha opinião mudou. Talvez eu tenha criado uma antipatia pelo multi instrumentista. Não gostei dele só de olhar pra sua foto na capa do disco. Tudo parece certinho demais, alinhado demais, ensaiado demais. A guitarra e o colarinho da camisa parecem propositalmente fora do registro.

Mas, como falei há pouco, minha opinião mudou.

Murilo Sá é um músico baiano, mas, apesar de ter sido gravado e produzido em São Paulo, seu som é extremamente gaúcho. A sonoridade do rock gaúcho que permeia todo o disco e isto é facilmente explicado pelo fato de dois dos integrantes d’O Grande Elenco, sua banda de apoio, terem suas passagens por bandas gaúchas. O guitarrista Gabriel Guedes é integrante da Pata de Elefante, e o baixista Felipe Faraco já tocou com o saudoso Júpiter Maçã.

O disco é bom, mas é pretensioso e irregular. Não em qualidade, a maior parte das músicas são ótimas, mas parece que não houve um cuidado em ordenar as faixas do disco. A audição em certos momentos não é tão fluida quanto as músicas. A faixa segunda faixa, que leva o nome do disco, “Sentido Centro”, é chata de doer, especialmente nos versos em que Murilo canta em inglês. As letras querem soar profundas, mas às vezes não dizem nada com nada. Ninguém se importa se você é fã de Lennon, Murilo, e isso não tem faz especial e essa referência na ótima “Rio Vermelho” ficou muito perdida.

Não me entendam mal, eu gostei muito deste trabalho. Aqui temos elementos de neopsicodelia, vozes e guitarras etéreas e distantes, cheias de reverb; rock n’ roll, as guitarras estaladas, batidas lineares, a bateria seca; e em certos momentos, elementos lúdicos e quase circenses, e até metais à Los Hermanos. Se levarmos em consideração que o próprio Murilo considera o também baiano Raul Seixas como sua maior influência, tudo começa a fazer mais sentido. Em “Muros” essa influência fica muito clara.

O disco é pretensioso, mas a audição não. Ele é engomadinho e meio xarope, como o Murilo parece na capa, mas deixando as primeiras impressões de lado, ele é agradável e sincero. Ele soa como uma viagem de carro, por estradas infinitas em lugares remotos. Coloque “Chalé 25” para tocar e deixe-se perder na imensidão.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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