Ride no Balaclava Fest 2019

Ao chegar na Audio, palco do Balaclava Fest 2019, eu fiquei surpreso. Não haviam filas, poucas pessoas fumavam calmamente do lado de fora e não havia nenhum agito. Um único vendedor ambulante oferecia bebidas aos passantes e algumas pessoas comiam calmamente enquanto conversavam na barraquinha de cachorro quente ao lado da entrada da casa. Tudo parecia tranquilo demais, especialmente em contraste a minha ansiedade. Faltavam vinte minutos para começar o show da Ride e eu fumei meu último cigarro antes de entrar, passei pelos seguranças e entrei.

Lá dentro, o cenário não era dos mais amistosos. Hipsters bigodudos de camisas coloridas dividiam o espaço com blogueiras e influencers do Instagram e eu começava a me perguntar o que estava fazendo ali. Não parecia que eu estava em um festival de música, e sim em uma baladinha feita para pessoas descoladíssimas. Passei pela porta e foi como da água para o vinho. Apesar do show esquisitíssimo que rolava no telão, o ambiente era muito mais amistoso. As pessoas eram completamente diferentes das que estavam do lado de fora. Roupas pretas, muitas camisas pretas de bandas britânicas e um total de zero barbudos de camisa florida do lado de dentro.

A banda entrou e fez um set quase idêntico ao que haviam tocado poucos dias antes em Londres, começando com o single recém lançado, “Future Love” e com “Lannoy Point”, do álbum mais recente “Weather Diaries”, na sequência. Mas o show esquentou mesmo quando as primeiras batidas nos pratos da bateria denunciaram que “Seagull” era a próxima música. Naquele momento os trintões e quarentões que estavam na Audio realmente se animaram e o ânimo não parou nem com “Dreams Burn Down” na sequência. As harmonias preenchiam o salão junto com o feedback e o chorus pesadíssimo saindo dos amplificadores de Andy Bell. Cada harmonia cantada pelo vocalista Mark Gardener e por Bell era acompanhada pelo público.

Era óbvio que estávamos entre fãs e apreciadores da banda que conheciam cada nota de cada música, mesmo das mais novas, como “Charm Assault”, também saída do último álbum da banda. Num exemplo extremo, o solo de cordas do final de “Vapour Trail” não foi executado, mas um barbudo baixinho do meu lado solfejava todas as notas do solo como se estivesse acompanhando a banda. Gardener foi extremamente simpático e agradeceu ao público, em especial aos fãs que os encontraram e reconheceram na Vila Madalena na noite anterior. A noite parece ter sido extremamente divertida, especialmente considerando a quantidade de caipirinhas que ele disse ter tomado.

A primeira parte do show foi encerrada com “Kill Switch”, que também havia sido estreada apenas poucos dias antes em Londres e, assim como “Future Love” estará no álbum “This Is Not A Safe Place”, a ser lançado em agosto deste ano. A banda então se despediu, mas é claro, voltou para o bis com a épica “Leave Them All Behind” em todos seus oito minutos de glória. Depois de “Chelsea Girl”, muitos acreditaram que o show estava terminado, mas ainda houve mais um bis, com”Catch You Dreaming” e “Like a Daydream”, músicas presentes nos primeiros EPs da banda.

O show terminou e os barbudos e as blogueiras continuaram do lado de fora, ignorando completamente o que havia acabado de acontecer a poucos passos de onde eles estava. Passei por eles na saída ainda meio surdo e com um sorriso, pensando no show que eles haviam acabado de perder.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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