Red Hot Chili Peppers no Lollapalooza Brasil 2018

O final da primeira noite do Lollapalooza 2018 só não foi decepcionante de verdade porque fui avisado antes do show por diversas pessoas que acompanharam as últimas performances da banda californiana Red Hot Chili Peppers, especialmente a última no Rock In Rio do ano passado, que o show deles não é grandes coisas. E de fato, não é.

O show de pouco menos de duas horas só não foi tão burocrático porque alguns membros da banda se esforçaram. Na verdade, todos menos o vocalista Anthony Kiedis pareciam estar se esforçando. Ele até jogou o microfone para o lado, fez uma dancinha ou outra, mas na maior parte do tempo ele parecia entediado e até chegou a errar a letra algumas vezes e alguns versos simplesmente deixou passar e não cantou. Não que isso fosse um problema de verdade. Todo o público sabia todas as músicas de cor e não deixou o cantor na mão.

É meio redundante falar da cozinha do Red Hot Chili Peppers, porque todo mundo sabe o quão incrível o baixista Flea é, mas o baterista Chad Smith também o é. Aliás, para todos os jovens mancebos que estavam ao meu redor naquela noite, babando a cada soada de corda do contrabaixo, devo avisá-los que um baixista não é nada sem o seu baterista. Chad Smith pode parecer às vezes que não está fazendo nada demais no palco, mas digo a vocês que poucas vezes na minha vida vi alguém bater com tanta força e precisão quanto ele. Cada batida do bumbo parecia que poderia derrubar uma parede.

Flea, por sua vez, falou mais com o público que Kiedis. Contou que eles tocaram com o Echo and the Bunnymen e que aquele foi um dos melhores shows que ele viu na vida e nos disse que pretendia ir à Igreja e tomar LSD para tentar ver Deus. Ele convidou o público para acompanhá-lo, mas acho que poucos entenderam a piada em inglês. Fora do script e fora do set impresso foi ele tocar um trecho de “Pea” do álbum One Hot Minute. Após a curta versão da música ainda provocou uma piada de Anthony Kiedis, que brincou sobre tê-lo visto escrever uma versão mais longa da música no café da manhã.

Mas o ponto baixo do show foi mesmo o guitarrista Josh Klinghoffer. Não queria falar mal dele porque sou um fã absoluto do ex-guitarrista da banda John Frusciante e sua simpática versão de “Menina Mulher da Pele Preta” de Jorge Ben foi uma boa adição ao show, embora tenho certeza que nenhum dos imberbes rapazes que estavam ao meu redor conhecessem a música. Mas Josh realmente não é Frusciante. Li numa entrevista recente que ele não gosta da comparação e que não procura imitar seu predecessor e qualquer pessoa que tenha assistido ao show sabe muito bem disso. Poucas vezes na minha vida vi alguém tirar um timbre tão feio de uma Fender Stratocaster e eu já trabalhei como técnico em um estúdio de ensaios. Os sons limpos de Frusciante foram substituídos por timbres sujos e, na maior parte do tempo, vazios. Em “Otherside” e “Californication” foi difícil. Era como se ele não estivesse nem tentando tocar o solo e se não houvesse bateria e baixo, ficaríamos com o silêncio.

No final, não foi o desastre que eu esperava, mas ficou longe de ser uma performance memorável. O público não pareceu se importar muito com o desânimo do cantor ou do desastre que tocava guitarra e curtiu cada música como se fosse a melhor performance que já haviam visto na vida. E considerando a curta vida da maioria dos que estavam ao meu redor, talvez tenha sido mesmo.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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