Radiohead no Soundhearts Festival

Eu poderia escrever dois textos diferentes para o show do Radiohead no Soudhearts Festival em São Paulo. Um show que eu esperava desde 2009 foi uma experiência frustrante e ao mesmo tempo incrível.

O festival, que nada mais foi que uma abertura estendida para o show do Radiohead, contou com a banda paulistana Aldo the Band, o grupo Junun, projeto que conta com o guitarrista Johnny Greenwood, e o DJ Flying Lotus. Como abertura o Aldo the Band não empolgou. As músicas soavam como um pastiche de tudo que encaixa no rótulo “indie” tocado por hipsters barbudos que moram em Pinheiros. Da mesma maneira, o Junun até empolgou, mas parecia completamente deslocado dentro do lineup. Saíram aplaudidos, mas talvez mais porque Johnny Greenwood estava no palco. O show do Flying Lotus, porém, deu o tom certo. As projeções e as batidas do DJ inglês abriram o caminho perfeitamente. Até rolou uma homenagem ao DJ sueco Avicii, que cometera suicídio apenas alguns dias antes.

Aí o Radiohead entrou em palco. “Treefingers” anunciou que o show estava para começar e aí saíram as primeiras notas de “Daydreaming”, cantada em côro por todo o público. Podia ter sido incrível, mas o som estava baixo. O som baixo foi um dos muitos pontos negativos da organização do festival. A “Área VIP”, esvaziada com ingressos custando o dobro da pista padrão, talvez tenha sido a única a aproveitar plenamente o show. Atrás, na pista comum, além da distância, a posição da área técnica, bem ao centro e muito próxima ao palco, impedia a visualização do palco, que era ridiculamente baixo. Foi um pedido da banda, que deve ter se frustrado a ver tão poucos à frente e o espaço absurdo entre o palco e o resto do público. O palco baixo, combinado com o telão conceitual fez com que ninguém conseguisse aproveitar muito bem o show. Os telões laterais não mostravam a banda, e era possível ver só pedaços, às vezes um sapato, ou o canto do rosto do baixista Colin Greenwood. Inicialmente havia sido anunciado que a cerveja oficial do evento seria a Heineken. Frustrados, fomos obrigados a pagar caro para beber Itaipava. A cerveja, inclusive, acabou antes do primeiro bis.

Ainda não sei se isso é bom ou ruim, mas fiquei com sede, porque acabou até a água.

Os ambulantes incomodavam, passando inconvenientemente onde já havia pouco espaço e berrando “CERVEJA ÁGUA” nos nossos ouvidos, mas o público incomodava mais. Nos quase vinte anos que frequento shows, poucas vezes encontrei um público tão mal educado quanto o que estava no show. Talvez tenha me acostumado mal com os roqueiros padrão de preto que, apesar da fama, não deram tanto trabalho quanto o público que estava no Allianz Parque. Os presentes formavam um grupo eclético, mas era nítido perceber as diferenças entre os fãs antigos, como eu, e os novos, que estavam se comportando como se estivessem num festival de música eletrônica. Pessoas se apertavam, se batiam, sopravam fumaça uns nas caras dos outros e, arrisco dizer pelo comportamento de muitos dos que estavam próximos a mim, usaram uma quantidade nababesca de drogas.

Sem julgamentos, cada um faz o que quer com seu corpo, mas literalmente todas as pessoas que eu conheço que estavam no show se queixaram de estarem próximos a alguém ou a um grupo de pessoas que de tão drogadas, atrapalharam, e muito, a experiência do show.

Apesar de tudo, o show foi incrível. O setlist, que varia a cada show, foi equilibrado, com uma boa dose de surpresas e sucessos para agradar à todos. O lance de não ter um setlist fechado às vezes é frustrante, mas vira parte da experiência do show. Nenhuma música emendava uma na outra, havendo sempre uma pausa e nesta pausa sempre ficava no ar a dúvida de qual música seguiria. Não rolou “Creep” (ainda bem), mas rolou sua irmã mais velha e mal humorada, “My Iron Lung”. “You And Whose Army?” foi uma reprise do show de 2009, com a mesma câmera no microfone mostrando o olho do Thom Yorke. Não rolou “Airbag”, para minha frustração, mas me realizei com “Let Down”.

Apesar de tudo, do empurra-empurra, do cara drogado na minha frente com queimaduras de cigarro autoinfligidas no antebraço, apesar da Itaipava e das horas em pé no sol, foi incrível. Talvez não tenha sido tão memorável quanto o de 2009. Talvez os problemas técnicos e da organização tenham tirado um pouco o brilho do show. Mas, no final das contas, o que importa é a música. Só espero que eles não demorem outros dez anos para voltar.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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