O Mundo Analógico – O Recomeço de Tudo

Desde sempre eu tenho meus problemas com gêneros fluidos e fusões entre gêneros diferentes. Daí advém boa parte dos meus problemas com este álbum d'O Mundo Analógico. Muitas bandas às vezes esquecem quem são em busca de uma identidade própria em meio à referências e influências. A primeira faixa, "El…

O Recomeço de Tudo (Independente)

Independente - 5.9

5.9

Quarenta minutos depois e eu ainda não sei o quê eu estou ouvindo.

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Desde sempre eu tenho meus problemas com gêneros fluidos e fusões entre gêneros diferentes. Daí advém boa parte dos meus problemas com este álbum d’O Mundo Analógico. Muitas bandas às vezes esquecem quem são em busca de uma identidade própria em meio à referências e influências.

A primeira faixa, “El Temido Pistolero Mustafah”, é uma faixa das mais inúteis. Ela começa com ruídos de rádio sendo sintonizada manualmente, similar aos interlúdios de “Songs for the Deaf” do Queens of the Stone Age, com mariachis distorcidos no fundo. Aí vira uma bobagem sem tamanho. Uma levada ska com menos de 30 segundos repetindo a mesma frase até terminar em silêncio e uma voz dizendo “hijo de puta”.

Filho da puta.

Daí em diante eu já perdi a vontade de ouvir o álbum, mas segui em diante. O silêncio que termina a primeira faixa dá entrada ao início da segunda faixa, “Uma Só Voz”. O fato dela começar com um fade-in parece tirar todo o peso do que podia ser um riff matador. Uma só voz é um título bem apropriado, já que parece que o vocalista Rafael Ronchi quer declamar todos os versos do pré-refrão de uma vez só sem respirar. Cheguei a ficar sem fôlego só de ouvir.

O álbum segue e tudo se mistura de uma forma que nem sempre parece homogênea. Às vezes parece que estou ouvindo ska, reggae, ou indie à Los Hermanos Aí tem um rap no meio de “Hora de Mudar”, uma música que podia ter sido escrita pelo finado O Surto. Há pitadas de hardcore e às vezes eu sinto uma distinta influência de Dazaranha. Lá pro final, “Adiante” parece emular o Planet Hemp e, do nada, vira screamo. No meio disso tudo ainda tem “Deixa o Sol de Pôr”, um desperdício tão enorme. A música tem aquele potencial pra ser hit do verão e é de longe a melhor música do disco. Ela termina, novamente, com as gracinhas da banda e eu fiquei com um gosto ruim na boca.

Os problemas da produção de “O Recomeço de Tudo” são os mesmos de muitas produções independentes e de artistas locais. Falta mão na produção. Falta um norte que não apenas se preocupe com os volumes de cada instrumento ou a quantidade de reverb no vocal, mas que se preocupe com arranjos, notas fantasmas, timbres e em dizer “PELO AMOR DE DEUS NÃO COLOQUE ESSA PORRA DESSE PICK SCRAPE DO CAPIROTO EM REMA”.

Sério, pick scrape não, galera. Isso não era legal nem em 1998.

O segundo álbum d’O Mundo Analógico é, no final das contas, um pout-pourri de infinitos gêneros e referências que parecem não fazer muito sentido ou criar uma identidade própria. Em sua página no Facebook, a banda se descreve como tendo “o intuito despretensioso de se divertir e levar esse mesmo sentimento ao seu público”. Fica bem claro desde a ingrata primeira faixa que a banda está se divertido, porém, muitas vezes, parece que eles estão se divertindo com piadas internas que ninguém de fora da roda parece entender.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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