Judas Priest no Solid Rock 2018

Se tem uma coisa que as bandas de metal oitentistas sabem fazer, essa coisa é show. O Judas Priest não é exceção.

O tape que tocava baixinho depois do show do Alice In Chains no Solid Rock começou abruptamente a tocar “War Pigs” do Black Sabbath num volume mais alto. Boa parte do público começou a cantarolar junto e logo depois do fim da primeira estrofe o “Oh Lord, Yeah!” cantado por Ozzy Osbourne deu lugar a um instrumental. Era nítido que o público já começava a se mexer e aumentar a ansiedade em relação ao que estava por vir. Ao soar das primeiras notas da guitarra, a imensa cortina colocada no palco caiu, revelando ao público a banda já a postos e no centro, Rob Halford dando um de seus característicos agudos.

É incrível que um senhor de 67 anos ainda consiga tirar essas notas da goela.

O que segui-se foi um espetáculo glorioso de fogo, riffs sincronizados e coreografados pelos guitarristas Glenn Tipton e Andy Sneap, agudos poderosos e muito peso. As projeções atrás do palco davam cor a cada música, como recortes de jornais antigos em “The Ripper”, máquinas voadoras cromadas disparando lasers nas músicas de “Firepower”, o álbum mais recente da banda, cenas que lembravam o videoclipe de “Hell Bent For Leather” na mesma e até uma homenagem a Ayrton Senna em “Freewheel Burning”.

É difícil de descrever o espetáculo que foi o show para os olhos e ouvidos e seria impossível escrever esta resenha sem falar justamente de Rob Halford entrando no palco em uma Harley Davidson na já mencionada “Hell Bent For Leather”. Esta música, inclusive é um excelente exemplo de entrega da banda. A gente já sabe exatamente o que esperar de um show do Judas Priest, mas eles sabem criar uma ansiedade, um senso de antecipação, que forma boa parte da graça do show. Não é só o entrar no palco com a moto, são os segundos que antecedem a entrada, com o ronco da moto tocados em altíssimo volume por todo o estádio antes de entrada propriamente dita. É a introdução estendida de bateria e a repetição quase infinita do acorde de F# antes de vir o inconfundível riff que abre “You’ve Got Another Thing Coming”.

O repertório consistiu em um bom balanço entre canções clássicas, principalmente da fase de maior sucesso da banda, como os álbuns “British Steel” e “Screaming For Vengeance”. Chegando perto do final, veio “Painkiller”, sua longa introdução na bateria, gloriosos harmônicos artificiais e os inconfundíveis vocais de Rob Halford. Onde eu estava não havia nenhuma roda, mas tenho certeza que algumas devem ter aberto nessa hora. Assim como o Alice In Chains, não houve a tradicional pausa para o bis e a banda seguiu direto, com “The Hellion” e “Electric Eye” para um publico em êxtase. Fechando o show, vieram as clássicas “Breaking The Law”, com a chamada tradicional de Halford, perguntando “Breaking the what?” para o público gritando “Law” de volta, e “Living After Midnight”. Depois de “Painkiller”, a voz de Halford dava sinais de cansaço e o refrão foi cantado inúmeras vezes pelo público, que a banda estimulava a continuar cantando.

A banda se despediu ao som de “We Are The Champions” do Queen, terminando uma excelente performance. Para eles, talvez tenha sido só mais um sábado à noite. Para quem assistiu, foi um excelente sábado à noite. Os deuses do metal certamente ficaram satisfeitos.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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