Garbage – Strange Little Birds

Já escrevi algumas vezes sobre a importância da primeira faixa, sobre como ela funciona como a primeira linha de um livro, uma declaração de intenções. O piano, as cordas e a voz da vocalista Shirley Manson em "Sometimes", faixa que abre "Strange Little Birds", o último trabalho da banda Garbage,…

Strange Little Birds (PIAS/Voice Music)

PIAS/Voice Music - 8.6

8.6

Um trabalho digníssimo de uma banda que veio mostrar que ainda é relevante

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Já escrevi algumas vezes sobre a importância da primeira faixa, sobre como ela funciona como a primeira linha de um livro, uma declaração de intenções. O piano, as cordas e a voz da vocalista Shirley Manson em “Sometimes”, faixa que abre “Strange Little Birds”, o último trabalho da banda Garbage, encaixa junto com o título, entregando que teremos algo de irregular para ouvir nos próximos 52 minutos. Entre o nome do álbum e os últimos lançamentos da banda, eu estava receoso de encontrar algo mais conceitual e menos, digamos, Garbage.

Considerando os dois últimos discos da banda, especialmente “Not Your Kind of People” de 2012, era natural se esperar um mergulho mais profundo no desvio que a banda fez do som que a tornou famosa nos anos 90. Aí “Empty”, a segunda faixa, apareceu e logo nos primeiros segundos eu sou colocado de volta no meu lugar. Um riff incrível vem anunciando a música, seguido de teclados poderosos, um refrão grudento e a voz de Shirley Manson rasgando meu coração em milhares de pedaços.

Cacete, que voz.

As texturas das guitarras acompanhadas da bateria precisa (e subestimada) de Butch Vig somadas aos elementos já mencionado fazem de “Empty” a melhor coisa que a banda lançou desde “I Think I’m Paranoid”.

Há uma boa variação entre moods em “Strange Little Birds”. O álbum cruza para um lado mais sombrio com “If I Lost You” e “Even If Our Love Is Doomed”. Nesse sentido, “Sometimes”, ao contrário do que eu esperava, se torna uma faixa de abertura incrível e “Empty” acabaria sendo o single que foge do padrão do álbum. Isto é, se não houvessem faixas como “Magnetized” e “We Never Tell”, onde voltamos ao Garbage eletrificdo e dançante.

Mas talvez a melhor faixa do álbum seja ainda “Night Drive Loneliness”. Nela, Manson parece canalizar tudo o que fez da trilha de “The World Is Not Enough” uma música boa demais para o filme mediocre do 007 que a batizou. Aliás, essa música é infinitamente melhor que a porcaria que deu o Oscar de Melhor Trilha Sonora para Sam Smith. Ouvindo ela é possível ver as cenas surrealistas com armas, mulheres seminuas e cores típicas de uma abertura de um filme de James Bond. É tanto reverb no riff de abertura que é impossível pensar em outra coisa.

Depois de alguns álbuns um tanto decepcionantes, fico feliz em dizer que a Garbage voltou à uma excelente forma. “Strange Little Birds” é um trabalho digníssimo de uma banda que veio mostrar que ainda é relevante.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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