Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos

Um show histórico. Único. Necessário para seu tempo. Bom que Jarbs Macalé, idealizador e diretor do evento, uniu o útil ao agradável. “Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos” é um manifesto musical contra a ditadura ocorrido no dia 10 de dezembro de 1973, gravado no Museu de Arte Moderna do…

Direitos Humanos no Banquete dos Medigos (Discobertas)

Discobertas - 8.5

8.5

Mais que um show com grandes nomes, o Banquete dos Mendigos foi uma semente de esperança plantada, momento único para guardar como documento.

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Um show histórico. Único. Necessário para seu tempo. Bom que Jarbs Macalé, idealizador e diretor do evento, uniu o útil ao agradável. “Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos” é um manifesto musical contra a ditadura ocorrido no dia 10 de dezembro de 1973, gravado no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em parceria com a ONU para celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Todos os músicos convidados tiveram parte de seu repertório censurado pelos militares, mas isso não diminuiu o impacto de suas apresentações. Infelizmente, apenas 42 anos depois do evento é que seu conteúdo foi lançado na íntegra pela gravadora Discobertas. Uma ideia, inúmeras vozes e um engenheiro de som, Maurice, possibilitou que um documento histórico de luta chegasse aos nossos ouvidos.

Aqui, temos participações de Paulinho da Viola, Edu Lobo, Johnny Alf, Gonzaguinha, Chico Buarque, MPB4, Milton Nascimento, Dominguinhos, Gal Costa, entre outros nomes de peso. Num show onde as músicas queriam passar mensagens (subliminares), nada melhor que poder acompanhar as letras no encarte do álbum triplo.

Começamos o primeiro volume com Paulinho da Viola afinando seu violão e me impressiono pela qualidade do áudio. Apesar da plateia acalorada, o som do instrumento e da voz não é comprometido. Ao cantar suas músicas, percebo que, especialmente nessa situação, para todos os que se apresentarem, as letras terão uma conotação de protesto. O que antes era uma música sobre a desilusão de um amor, pode ser a desilusão de um país inteiro.

Seguimos para Edu Lobo no violão, acompanhado de Danilo Caymmi na flauta, com sua apresentação pungente. Jorge Mautner veio com um pouco de ironia em suas letras, fazendo o povo rir (quem sabe de nervoso). Mas o arranjo das músicas parecia bem improvisado, fazendo o nível de qualidade cair um pouco. E então Johnny Alf recuperou todo o ânimo com sua voz que preenche cada espaço, seu piano cheio de bossa e suas letras de arrepiar. Gonzaguinha conclui o primeiro volume com um protesto declarado, irônico e inteligente.

Luiz Melodia abre o segundo volume com um violão desafinado, sem carisma e com uma apresentação feita nas coxas. E depois vem Raul Seixas com seu estilo bem próprio, que não era o mais adequado pro momento. Quando já estava duvidando do rumo que o show estava tomando, eis que surge Soma, banda estrangeira com um estilo folk, a là Crosby, Stills & Nash. Belas músicas, arranjos, de uma riqueza que apenas ouvi no início do evento.

E aí vem MPB4 e Chico Buarque para deixar o show com a cara que ele tinha que ter. Letras fortes, interpretações cheias de bravura. Chico canta como nunca antes vi e solta a máxima: “assim como o MPB4 está desfalcado sem o Magro, meu repertório também está”. Mais direto impossível. O público foi à loucura. E o segundo volume termina com a instrumental “Nanã das Águas” de Edison Machado: bem dispensável.

Partindo para o último volume, Milton Nascimento consegue me deixar sem palavras com sua versão impecável de “A Felicidade”. O que dizer dessa letra? Depois, sugere com “Cais” ação e sonho da plateia e planta uma semente de esperança com “Nada Será como Antes” – uma apresentação sublime. Depois, o idealizador do evento apresenta suas composições para depois seguir com Pedro dos Santos e sua percussão. Dominguinhos traz um pouco de melancolia e leveza em seu acordeon num rock baião para fazer o público dançar também.

A última a se apresentar é Gal Costa com sua sensibilidade aguçada. Cantando “Trem das Onze”, puxa o povo para cantar junto, para de cantar, deixando a voz da plateia falar mais alto e fica apenas fazendo vocalizes improvisados. Impressionante. O show termina com leveza, mas, sendo a ONU também responsável, Ivan Junqueira lê alguns dos artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. É de arrepiar que, a maioria dos artigos estavam sendo completamente ignorados pela ditadura. Mais que um show com grandes nomes, o Banquete dos Mendigos foi uma semente de esperança plantada, momento único para guardar como documento.



Criada por família musical e artística, vive nutrindo sua essência com arte. Desde os 7 anos, é inspirada por Beatles, Disney e The Sound of Music. Listomaníaca, sonhadora e fascinada por organização, decoração e estilo;acredita que um bom papo com companhias queridas e culinária italiana à mesa é uma boa receita pra alegria plena. Manezinha apaixonada pelo frio, atualmente mora em Curitiba.


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