…And You Will Know Us By The Trail Of Dead no SESC Pompeia

Não é todo dia que se tem a oportunidade de assistir de perto a sua banda favorita, especialmente quando se mora no Brasil e sua banda favorita é um grupo semi obscuro de texanos que tiveram uma dose de sucesso moderado no início dos Anos 2000. É o meu caso com o …And You Will Know Us By The Trail of Dead, possivelmente a banda que eu mais ouvi quando tinha meus 20 anos. Conheci eles através da coluna do Álvaro Pereira Júnior no extinto caderno Folhateen, que saía às segundas na Folha de São Paulo. Na época eles tinham recém lançado seu primeiro álbum por uma grande gravadora, “Source Tags and Codes”, e “Another Morning Stoner”, o primeiro single, tocava em razoável rotação na MTV. Eles haviam vindo ao Brasil um pouco antes de eu conhecê-los, em 2001, e desde então, voltaram à relativa obscuridade. Continuei acompanhando a banda, e continuei ouvindo cada lançamento, mas nunca tive nenhuma esperança de vê-los ao vivo. Não no Brasil, pelo menos.

Então, em uma tarde como qualquer outra, abri minhas notificações no Facebook e apareceu o evento:

“Balaclava apresenta: And You Will Know Us By The Trail Of Dead”

Meu coração parou. Por míseros R$40,00 eu poderia assistir uma das bandas que definiram a minha juventude do lado de casa, no SESC-Pompeia. Não apenas um show, seriam dois. Na sexta e no sábado. A banda estava fazendo shows comemorativos de vinte anos de lançamento do incrível álbum “Madonna”, tocando-o na íntegra. Coloquei na agenda a data e hora da abertura das vendas no site do SESC e fiquei aguardando. No tão esperado dia de comprar os ingressos, o caos reinou na Internet e no site do SESC e, depois de alguma insistência, desisti de comprar. Suspirei, resignado, um “ah, tudo bem” e segui minha vida. Nisto, minha esposa foi correndo pra fila no SESC mais próximo de casa e conseguiu comprar um ingresso para o show de sexta. Eu estava extasiado.

Aliás, obrigado, Mariana, especialmente por ter aturado os fãs de Liniker pra comprar este ingresso.

Cheguei ao SESC Pompeia um pouco mais tarde do que eu gostaria de ter chegado, mas, mesmo assim, a choperia, onde seria o show estava praticamente esvaziada, com muitos dos presentes ainda na fila do bar esperando pra comprar bebidas. Achei um lugar na beirada do palco, atrás de uma moça de cabelos vermelhos bem mais baixa que eu. Na minha frente estavam efileiradas uma série de guitarras Squier Jaguar e a setlist colada no chão com fita isolante. O técnico na mesa de som disparou sem querer a faixa “And You Will Know Them”, que abre o álbum “Madonna”, e logo parou, mas pouco depois, seus trinta e um segundos foram tocados integralmente e a banda entrou no palco. Seguindo a sequência do disco, iniciaram com “Mistakes and Regrets” e o amplificador Orange do guitarrista Aaron Blount socou meus ouvidos como poucas vezes na minha vida.

Possivelmente perdi alguma porcentagem de audição naquela noite, mas valeu a pena.

O show seguiu na sequência com “Totally Natural” e em “Blight Takes All”, Conrad Keely e Jason Reece, trocaram de posições. Ambos alternam entre as vozes e guitarras e a bateria nas músicas e nos shows. Keely iniciou na guitarra o show e agora era a vez de Reece, mas que logo voltaria para trás da bateria para “Clair de Lune”. Exceto pelas curtas instrumentais “Up From Redemption” e “The Day The Air Turned Blue”, o álbum foi tocando da íntegra, com o auge numa versão extendida da faixa que o encerra, “Sigh Your Children”. Por muito mais tempo que pude perceber, estávamos imersos no mesmo transe que a banda, repetindo riffs de maneira catártica antes de encerrar a primeira metade do show. Então, sob intensos aplausos, Jason Reece foi até o microfone e perguntou: “Então, devemos ir pro próximo disco?”. Seguiram tocando “It Was There That I Saw You” e “Another Morning Stoner”. Na sequência, Jason Reece deu, o que de acordo com ele era apenas uma sugestão”, de que deveríamos fazer um “circle pit”, mais conhecido no Brasil como “mosh pit” ou “roda punk”. A banda então disparou “Homage”, uma música extremamente apropriada para a situação, e o público respondeu abrindo uma roda que ocupou boa parte do centro do salão.

Reece, apesar de cantar menos músicas que Keely, conversou mais com o público e desceu do palco em “Caterwaul”, indo até o fundo e chegando a cantar em cima de uma das mesas da casa antes de voltar ao palco. O surpreendentemente longo cabo do microfone era passado por cima das nossas cabeças para que ele pudesse continuar a performance. Reece voltou para a bateria e Keely encerrou a segunda metade do show com “Will You Smile Again?”, contando com apoio na bateria. A banda saiu e voltou ao palco para o bis com “How Near How Far” e “Richter Scale Madness”, anunciada por Keely como a primeira música que eles comporam e o início de tudo pra eles em Olympia, no estado de Washington, onde ele e Reece se conheceram.

A banda é conhecida por suas performances energéticas, pelo volume alto e por sua intensidade, e foi tudo isso e mais. A performace de uma vida para os que estavam lá, bateram a cabeça, foram quase degolados por um cabo de microfone e ficaram meio surdos. Vou guardar com carinho cada instante da noite em que tive o privilégio de ver eles no palco.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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