Aerosmith no Anfiteatro Beira Rio

Vamos tirar uma coisa do caminho antes de eu começar esta matéria:

Eu acho que o Aerosmith é uma das maiores e melhores bandas de todos os tempos. Sou fã deles desde que assisti o videoclipe de “Falling In Love (Is Hard On The Knees)” em 1998 na MTV. Um dos primeiros CDs que eu comprei na minha vida foi o “Nine Lives” e tenho o “Done With Mirrors” do Rodrigo Daca até hoje em casa e não decidi se ainda pretendo devolvê-lo. Antes de ir no show eu ouvia “Sick as a Dog” no repeat em extrema antecipação pelo que viria no dia seguinte.

Agora podemos começar: O show deles em Porto Alegre na noite de ontem, dia 11 de outubro de 2016, foi frustrante.

Explico-me:

Entramos minha namorada e eu no “Anfiteatro Beira Rio”. Na moral, é um palco no meio do estádio, mas vamos chamá-lo disto. Até aí, tudo bem. Tudo que se espera de um estádio “padrão FIFA”, mas logo veio a primeira frustração. Era uma DJ fazendo a abertura do show. Com tantas bandas renomadas e respeitadas de rock na cidade de Porto Alegre e no estado do Rio Grande do Sul, pôr uma DJ que toca em eventos farofeiros como Happy Holi pra abrir o show de uma das maiores bandas de rock do mundo foi, no mínimo, uma escolha lamentável. Mas nem comecei a falar dela ainda. A DJ, Karine Larré, fez um set esquizofrênico, que variava entre remixes toscos, house farofa e entre uma coisa e outra o refrão de alguma coisa. Como boa parte do público era composto de roqueiros genéricos de preto, eles vibravam a cada vez que tocava um trecho de Metallica, The Clash ou Foo Fighters, mas logo se cansaram. De longe ela mais parecia o Mr. P de Pijama, pulando e batendo cabelo como se fosse uma Joelma metaleira. Por fim, a DJ tocou o hino do Rio Grande do Sul, que a platéia cantou em côro e, para minha alegria, foi embora para nunca mais ser vista.

Depois de muita expectativa, finalmente a banda começa. Vieram as primeiras notas de “Back In The Saddle” e mais frustração. Eu esperava um soco de ar e som na cara. Veio um peidinho de velha. A banda tocava como se tivesse um milhão de Watts de potência RMS atrás deles, e talvez tivessem, mas os técnicos de som mandaram um pentelhésimo disso pra platéia. O som estava tão baixo que com os gritos encobriam praticamente toda a música. Víamos a banda, víamos a performance. Ouvíamos pouco, muito pouco. O som só foi ficar decente tendo passado uns bons vinte minutos de show.

Porém, a banda era tudo que eu esperava. Músicos magníficos, cheios de energia, principalmente a dupla Tyler e Perry. O set foi bem equilibrado, tocando clássicos, músicas não tão conhecidas, antigas favoritas e mega hits. Tocaram até um cover de “Stop Messin’ Around” do Fleetwood Mac, com o guitarrista Joe Perry assumindo os vocais. Fizeram tributo às mulheres que lutam contra o câncer de mama com “Pink” e um Steven Tyler embrulhado numa estola cor-de-rosa. Na maior parte do tempo, apenas o vocalista Steven Tyler ia para frente do palco. Perry o acompanhava às vezes, e o baixista, Tom Hamilton, foi para a frente apenas na última música, “Sweet Emotion”.

Foi lindo. Valeu a pena ter acordado as quatro da matina porque a Gol mudou o horário do meu vôo para às 6h00 e vê-los de perto.

Mas o que realmente me chateou não foi a DJ meia boca do Hopi Hari Potter, nem o som baixo. Foi o público. A banda começou emendando hits. “Back In The Saddle”, “Love in an Elevator”, “Cryin'” e “Crazy”. Então o Tyler anuncia que iriam variar um pouco e tocar algo do disco “Draw the Line”. Tocaram “Kings and Queens”, que rendeu uma performance espetacular do guitarrista Brad Whitford. Na minha opinião, Brad Whitford seria celebrado como um dos grandes guitarristas da história do rock se não tivesse o azar de tocar na mesma banda que Joe Perry. O que o público fez? Tirou o celular do bolso e começou a ler sua timeline do Facebook. Eu via por toda parte gente nos seus celulares, vendo o Instagram, lendo e mandando mensagens no WhatsApp e ignorando o que acontecia a poucos metros deles. Nas arquibancadas, muitas pessoas sentavam, como se estivessem entediadas. Um pouco depois em “Monkey on My Back” também esfriou o público. Quando a música acabou Tyler gritou “Pump, Baby, Pump!” como se estivesse se queixando: “Porra, essa é de um dos nossos maiores sucessos!”. Aí a banda toca um hit. Tudo volta ao normal.

Entre a abertura e as dificuldades técnicas, foi aquém do que eu esperava. A banda não decepcionou, mas espero que quem os assista no resto da turnê ou no Rock in Rio ano que vem encontre menos dificuldades. Espero também que a banda encontre um público que não se esconda atrás dos seus celulares toda vez que toque uma música que não esteja nas cinco mais tocadas do Spotify da banda.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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