A Place to Bury Strangers no CCSP

Pode-se dizer que a noite de 9 de Maio foi, no mínimo, estranha. O trio novaiorquino A Place to Bury Strangers já estava tocando na Sala Adoniran Barbosa quando chegamos no Centro Cultural São Paulo. Como faltava um bocado de tempo ainda para o início, nosso eventual colaborador, Matheus Diogo, e eu fomos tomar uma cerveja no boteco do outro lado da Avenida Vergueiro para matar o tempo. O boteco estava lotado de pessoas de preto fazendo o mesmo que a gente, esperando o início do show, e lá descobrimos que o show que estava rolando naquele momento era o show extra, em que a banda tocaria o álbum “Worship” de 2012, que deveria ter acontecido na noite anterior e foi interrompido logo no início por problemas técnicos. A banda faria um show de uma hora e depois de um intervalo de uma hora iniciaria o show agendado para a noite.

Pagamos a conta e fomos abordados por um cavalheiro que se queixava do som no primeiro show estar baixo demais e torcendo para estar mais alto pro segundo, dizendo que talvez eles não tenham se drogado o suficiente antes de se apresentarem. O som não estava baixo. Os dançarinos de break e de k-pop que normalmente se aglomeram e ensaiam nas imediações do prédio mal conseguiam ouvir o som de suas caixas que era coberto pelo som que vazava do show.  Provavelmente o som só estava mais mais baixo que o que o cavalheiro gostaria. Momentos depois vimos ele no show sem camisa, girando sua jaqueta de couro nas mãos como se estivesse num jogo de futebol.

Assistimos ao show do mezanino da Sala Adoniran Barbosa. Quer dizer, ouvimos, o show assistir foi um problema. O palco, geralmente posto embaixo de um dos lados da galeria, foi posto no centro da sala, com as beiradas do palco quase embaixo da beirada do mezanino. Mesmo que todos estivessem sentados, seria quase impossível assistir ao show direito. A pouca iluminação e as máquinas de fumaça também não ajudavam. Era difícil ver qualquer coisa além da bateria e a ocasional guitarra voadora. Em um momento a banda toda foi para o meio do público, como é costumeiro fazer em seus shows, mas boa parte do público, quem estava atrás do palco ou no mezanino não conseguia ver nada e ficou sem entender o que estava acontecendo.

Essas coisas sempre tiram um pouco do brilho da experiência de quem está assistindo, mas no fundo o que importa é a música. A banda entregou uma performance cheia de energia e, sim, muito barulho. O show de um pouco mais de uma hora foi um apanhado de toda a carreira, passando por todos os álbuns da banda, exceto pelo “Worship”, que já havia sido contemplado no show anterior. Apesar da banda não ter hits discerníveis, o público vibrou mais quando começou “Keep Slipping Away”, sua música mais ouvida no Spotify, com pouco mais de um milhão de plays. Sem cerimônia a música começou como se fosse qualquer outra do catálogo da banda.

Não houve bis, e todos que não haviam assistido ao primeiro show ficamos com a sensação que o show podia ter esticado um pouquinho mais. Saímos em meio à fumaça e aos destroços de um baixo Fender jogados no palco, junto com os outros instrumentos, jogados como brinquedos de uma criança espalhados pelo chão do quarto.



Designer, sociólogo de boteco, baixista de fim de semana, DJ ocasional, leitor ávido de Wikipédia e escritor de romances de gaveta. Manézinho de nascimento, criado em Porto Alegre e atualmente mora em São Paulo. Como todo bom crítico, já tocou em várias bandas que não deram em nada.


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